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A direção da Amafresp é um desafio que pertence a 20 mil filiados

04 jul 2018 • Fabieli de Paula

Renato Chan afirma que um dos maiores desafios é fazer a Amafresp ser uma autogestão acessível e de excelência aos filiados e dependentes. Confira a entrevista exclusiva do diretor sobre os planos e expectativas da atual gestão.

Quando aceitou a proposta para ser diretor da Amafresp, como enfrentou o desafio?

A minha experiência na gestão anterior como diretor de Projetos da Afresp foi importante para entender e incorporar o que é o espírito associativo e, agora, acima dos 40 anos, estou em uma fase da vida de reflexão, de como pensar em ajudar o próximo e fazer o que estiver ao meu alcance para se ter uma sociedade melhor.

O convite para ser diretor da Amafresp veio ao encontro de tudo isso. Então, quando o Rodrigo me convidou, houve uma mistura de sentimentos: um frio na barriga por conta da responsabilidade de administrar um plano de saúde com 20 mil vidas e um sentimento de felicidade por ser justamente a oportunidade de contribuir para o fortalecimento da Afresp e, ao mesmo tempo, alcançar meu objetivo de ajudar as pessoas.

Quais são os problemas ou dificuldades que a Amafresp enfrenta?

Todas as operadoras de planos de saúde enfrentam desafios semelhantes, mas, no caso da Amafresp, os desafios são ainda maiores. Hoje, a principal preocupação das operadoras é o custo dos serviços médicos, pois, ano após ano, a inflação neste setor sobe bem acima do IPCA. Além disso, com o envelhecimento da população, é natural que a utilização dos serviços médicos e as internações aumentem. Já no caso da Amafresp, a perda da renda do nosso associado por conta da ausência de reajustes salariais é um dos maiores desafios, pois cria uma situação em que os custos sobem, mas o nosso filiado não consegue mais arcar com esses aumentos de custos. Estamos em um intenso trabalho de negociação com nossos prestadores, porque contenção de custos é questão de sustentabilidade do plano.

Também não vejo como fugir de um trabalho de conscientização do nosso associado. Nosso plano tem o valor da cota calculado mediante rateios dos gastos do período anterior, então, quanto mais se usa o plano, maior acaba sendo o valor da cota. Nesse sentido, é importante o uso racional do plano. O que seria o uso racional? Dou alguns exemplos que me deixaram chocado. O primeiro foi ouvir de alguns associados que eles pagaram a vida inteira pelo plano e agora querem usar bastante para justificar tudo aquilo que pagaram durante todos os anos e não precisaram usar. Eu vejo como uma bênção eles não precisarem ter usado nos anos anteriores e torço para que eles tenham muita saúde e continuem não precisando, mas, se precisarem, que usem de maneira racional e consciente. Outro exemplo que eu vi foi um associado que passou com um clínico geral e não gostou dele porque esse médico só receitou um analgésico e um exame para ele fazer. Então, ele resolveu se consultar com um médico especialista e esse médico receitou diversos medicamentos e uma pilha de exames para ele fazer. Esse médico na opinião dele era bom, mesmo ainda não sabendo do resultado final do tratamento. Nossa cultura associa a qualidade do médico à quantidade de exames que ele manda realizar. As pessoas precisam ter a consciência de que o maior responsável pela sua saúde são elas mesmas.

Como avalia os três primeiros meses de gestão?

Esses meses representam bem aquela metáfora de trocar o pneu com o carro andando. Foram meses de aprendizado, em que precisei ser humilde e perguntar tudo sobre o funcionamento do setor de saúde. Nesse processo, agradeço muito ao meu antecessor, o Alexandre, que me proporcionou uma transição planejada e também a toda a equipe da Amafresp, que me recebeu com todo o carinho e disposição para eu ir me habituando a esse novo dia a dia. Por outro lado, também precisei exercer meu papel de líder de organização. Alguém que se preocupa em motivar e capacitar todos os colaboradores e entregar resultados para a Afresp e seu associado.

Foram meses muito intensos. Fizemos um trabalho de planejamento estratégico, levantamos 132 sugestões de projetos e discutimos todos eles para definir quais serão executados.

Visitamos alguns hospitais da nossa rede credenciada porque é preciso ver a estrutura que existe para oferecer ao associado; iniciamos renegociações contratuais; conhecemos fornecedores de novas tecnologias na área de saúde para melhorar processos; organizamos a Campanha de Vacinação com a participação voluntária de parceiros para termos custos menores. Enfim, foram realizadas ações de planejamento para que os resultados possam aparecer de maneira consistente.

Quais são suas expectativas como diretor da Amafresp?

A Amafresp é um plano de saúde com 50 anos de existência e que hoje possui quase 20 mil vidas. O trabalho será árduo porque a renda do AFR caiu muito nos últimos anos, mas, mesmo assim, ele quer ter acesso aos serviços mais caros com preço de planos de categorias inferiores. A conta não fecha, mas ele pode ter certeza de que estamos iniciando atividades com foco na diminuição de custos, porém, infelizmente, elas não trazem resultado imediato.

Também precisamos fazer a nossa carteira de associados crescer. Tendo mais vidas no plano, conseguimos ter mais força em negociações comerciais, diluímos o custo do plano em mais cotas e podemos oferecer novos planos por categoria de valor. Entretanto, antes de crescer, é preciso que todos os processos estejam bem estruturados para que o crescimento se dê em bases sólidas.

Acredito que uma central de atendimento seja importante para que possamos direcionar a demanda do associado para pessoas bem treinadas e informadas sobre todos os assuntos que digam respeito à Amafresp.

Como imagina a Amafresp no futuro?

Em novembro do ano passado, participei de um congresso de planos de saúde em que a diretora de fiscalização da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) foi uma das palestrantes. Lá ela disse categoricamente que planos de saúde de pequeno porte possuem riscos de sustentabilidade muito grande e que por isso a ANS tomaria algumas ações de maneira a incentivar que esses planos tivessem a sua carteira incorporada por planos maiores. Ouvir aquilo foi um choque para muitos que estavam lá. Órgãos regulatórios têm esse poder nas mãos, então não podemos ficar parados imaginando que ficaremos imunes a esse tipo de movimento. Portanto, um dos nossos maiores desafios para o futuro será fazer a Amafresp crescer e torná-la um plano de autogestão acessível a todos os bolsos e com grau de excelência em seus processos e atendimento aos associados.

Acredita que a Amafresp pode utilizar a tecnologia em favor da autogestão?

Hoje em tudo o que você vê, lê e escuta há alguma relação com tecnologia. Nós não apenas podemos, como devemos utilizar tecnologia no nosso dia a dia. A tecnologia deve estar presente para facilitar os processos de autorização, auditoria dos pagamentos das contas hospitalares e  atendimento ao associado, entre outros procedimentos.

No mês de fevereiro, eu e a Rosângela, nossa gerente, estivemos em um evento de startups na área de saúde e em um seminário da FGV falando sobre inovação nessa área. É espantoso como isso cresce, mas infelizmente novas tecnologias também custam caro. Então, vamos ter que filtrar bem aquilo que pode trazer um bom custo-benefício para a Amafresp e que também possa ser bem utilizado pelo nosso associado. Afinal de contas, não adianta implantarmos algo que provoque rejeição ou que ele não tenha condições de usar.

Fique à vontade para acrescentar alguma informação

Assumir a direção da Amafresp é um grande desafio, que pertence a 20 mil filiados. Qualquer decisão que precise ser tomada, será pautada em bases técnicas e sustentadas no que prevê nosso regulamento.

Nesses primeiros meses me deparei com situações dificílimas de ter que explicar para alguns associados o porquê de determinado procedimento não ser autorizado, o porquê de estar sendo cobrada coparticipação ou de pedidos de reembolsos serem negados e, muitas vezes, acabamos nos deparando com ações judiciais e notificações da ANS que, em praticamente 100% dos casos, dão razão para a Amafresp. Em todos esses casos, contamos com assessoria especializada de um escritório jurídico, e contratar esse escritório acaba se refletindo em um custo que, no fim, quem paga são os próprios associados.

Diante disso, a mensagem que gostaria de passar é que todos os associados podem contar conosco dentro daquilo que o regulamento da Amafresp nos permite fazer, mas, para que uma coletividade de 20 mil pessoas possa funcionar, não é possível pensar em atender individualidades que estejam fora do alcance do regulamento.